domingo, 7 de julho de 2013

Vendo Além

Era uma vez uma pessoa que enxergava em quatro dimensões.
Sim. Ela via não apenas largura, profundidade e comprimento, mas por algum obscuro dom enxergava também o conteúdo de tudo.
E isso era uma bênção. Isso a tornava diferente de grande parte das pessoas, em que pese sentir-se tão irmanada da humanidade...
Mas o que a faria sentir-se assim? ...Ela experienciara, há tempos, o confronto com si mesma. Adotou uma ideologia, e a seguiu, independentemente de isso significar, no mundo material, deixar a zona de conforto. Deixar as asas protetoras da família e aventurar-se na realidade de uma forma que poucos creriam.
O que ela fez?
Mergulhou em tudo o que pregava.
Mergulhou de cabeça na ideologia que aprendera desde cedo a adorar: "Não há diferença entre mim e qualquer outro ser humano. Eu os compreendo profundamente. Os aceito. Nutro profunda compaixão pelos desafortunados, pelos oprimidos, pelos pobres de dinheiro e pelos pobres de espírito; pelos que erram..."

Ela (sim, era uma mulher) parou de julgar.

Teve que escolher entre subjugar o orgulho próprio ou render-se a uma condição material muito inferior. Ela não era Buda, mas o Príncipe que deixou o reino para viver entre os súditos, como um deles, Esse lhe inspirava intensamente.  E o carpinteiro também. Aquele que perdoava, e ainda que ela não conseguisse lhe copiar a mansitude e humildade de coração, ela também o admirava, profundamente.

...Então, essa mulher teve uma experiência única e reveladora. Como teria alguém que, aos 18 anos, se rebela contra a família e decide viver por suas próprias pernas. Seria possível viver de salário mínimo? Sem plano de saúde? Pagando aluguel, conta de luz? Tomando banho de cano? Esperando a condução junto com uma moça que sempre carregava um lenço de papel para limpar do solado do sapato o barro vermelho de onde vinha? Seria possível alguém deixar o conforto material por uma questão de princípios, de orgulho, e se submeter a isso? ...Pois isso foi o que de melhor lhe aconteceu em anos de vida.

Sentiu-se humilhada quando a kombi chegou, para buscar-lhe a mudança da zona nobre da cidade, rumo àquela bendita terra de barro vermelho e gente humilde. Sentiu-se acuada, com medo, mas foi adiante. E sentiu fome... Mas a bondade alheia lhe serviu uma fatia de pão de forma com um ovo frito, que ela temperou com lágrimas muito, muito gratas.   ...O crescimento exige coragem. Mas vale para o espírito tanto quanto o ouro para os mercadores.

Aquela mulher dormia com o barulho dos grilos, via o céu límpido da noite com suas milhares de estrelas, compreendendo que havia tanto mais no universo do que seu ego poderia supor; aquela mulher abria os olhos, a cada manhã, como quem nascesse a cada novo dia. ...Aquela mulher foi muito feliz.  E o que ela adquiriu é riqueza imperecível, inalienável, eterna.  E tornou-se muito, muito rica por causa dessa história, tão vívida em sua memória, que é como se a revivesse sempre que revisita o passado.

É preciso muito pouco para ser feliz.



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