quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Taça de Fel

A visão que eu tinha do outro era a mim mesma, embaçada.
Que deslumbrante espelho tu foste!

Como dizer que antes nunca o tivesse tido? Pois que nunca me pertenceu, nunca me pertenceria.

Como pensar que preferia nunca ter sorvido do teu vinho seco, deliciada no torpor de uma alma qualquer que se apossou de mim - não a minha.

Sigo com as mãos vazias.
Jamais me deste coisa alguma além de um pálido reflexo de mim mesma.
Deveria ser-te grata por isso, eu sei.

Mas amargo perdas do que nunca tive.
Amargo que me desce pela garganta, e que eu, nauseada, preciso engolir.

Desce aos soluços.
Desce rasgando minhas entranhas.
Mas é preciso engolir.

Há que se escolher bem as taças das quais sorver a ilusão.

Resta agora o fel final do teu extravagante licoroso.




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