domingo, 7 de agosto de 2016

As Mais Doces Balas

     Do lado de fora do restaurante, uma moça impaciente grita: "Bala! Quer bala? Compra uma bala, por favor???". Seu tom era quase impositivo.  Acenei com a cabeça que não.

     Mas ela trazia uma criança nos braços, e estava determinada. Senão a vender e conseguir dinheiro, a descontar em quem quer que fosse a revolta pela amargura da vida - eu supunha.

     Deu a volta por trás janela, e entrou de arroubo no restaurante. Passou por minha mesa com a fúria determinada de quem não tem escolha diante do que a vida lhe impôs. Esbarrou em meu prato, que quase voou, e foi vender suas balas nas mesas adiante.

     Com a fúria com que ela vinha, segurando a criança nos braços, me perguntei se aquele esbarrão não teria sido proposital. E, a partir de então, ganhei eu a oportunidade de escolher se reagia com o olhar fuzilante de quem um dia eu fui, combativa e tantas vezes intolerante; ou se lhe concedia o benefício da dúvida. ...Era bem verdade que, em outros tempos, eu seria capaz de lidar da mesma forma que ela diante das vicissitudes, e eu certamente teria sido capaz de esbarrar de propósito. Teria, sim, sido capaz de virar com sarcasmo e arrogância, e dizer "desculpe". Nunca fui melhor que ninguém, aliás, já fiz muitas coisas das quais não me orgulho nem um pouco.

     Ela voltava das mesas do fundo, onde oferecera balas a todos, mas ninguém comprara. Voltava em minha direção, a criança num braço, a caixinha de balas no outro, com um certo receio no olhar. E esse era o momento da minha escolha.

     Em frações de segundo me veio à mente toda a revolta amarga que um dia eu havia provado, por todas as vezes em  que me sentira impotente diante das vicissitudes, também com um filho nos braços, e com a fúria de quem não tem outra opção a não ser enfrentar a vida. A partir daí, a escolha estava feita.

     Aquelas foram as balas mais doces que já comprei.

     Vi o semblante no rosto da moça se transformar, em segundos sumiu a apreensão e seus olhos se iluminaram, agradecidos.

... E então uma voz, que me é muito familiar, passou a soprar-me ao pé do ouvido que, na vida, estamos sendo testados a cada momento. Que podemos, sempre, escolher de que modo reagir diante de tudo o que nos acontece. Que diante de nossas escolhas se desenrolam caminhos cujas vicissitudes no futuro venhamos, talvez, a atribuir ao acaso, ou mesmo à injustiça do mundo. Que, portanto, é preciso estar sempre atento para que os frutos não se percam. Que o defeito que vemos no outro é bem provável que o tenhamos em nós mesmos. Que o livre arbítrio há que ser exercido com responsabilidade mesmo nas pequenas coisas, pois de pequena em pequena coisa nossa alma vai se enriquecendo...


...E que, ainda que não haja sinal algum de amor, deve-se distribuí-lo.
   É pelo exemplo que se aprende a amar.


Nenhum comentário:

Postar um comentário